“Negrinha” e a visão atrasada do que é racismo

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“Negrinha” é uma das obras maduras de Monteiro Lobato, com 17 contos que se passam no começo do século XX (Foto: Arquivo Pessoal)

Falar sobre Monteiro Lobato (1882-1948) é trazer à memória de muitos adultos as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo. Mas, ao mesmo tempo, é evocar a polêmica dos últimos anos em torno do racismo presente em suas obras.

Há, na verdade, várias discussões defendendo e negando a existência do preconceito contra pessoas negras nas suas histórias, principalmente em seus livros infantis na personagem Tia Nastácia. E é sobre esse assunto que vou discutir, mas tomando como base o conto “Quero ajudar o Brasil …”, que compõe uma de suas obras adultas, Negrinha.

É importante destacar que o lugar de fala sobre as referências de Lobato às pessoas negras é da comunidade negra [Iolanda é uma mulher branca]. O que se pretende a seguir é gerar o debate sobre a questão, que é importante, e incentivar a leitura crítica da obra.

É mais do que bem-vinda a visão de pessoas negras nos comentários, não apenas contribuir com o diálogo, mas para que assumam o protagonismo dele.

Quero ajudar o Brasil

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“Quero ajudar o Brasil …” (1938) mostra os interesses de Lobato no negócio do petróleo (Foto: Arquivo Pessoal)

Negrinha é um livro com 17 contos que se passam no começo do século XX, com temas variados. Todos, porém, trazem alguma figura representativa da sociedade brasileira na época.

No caso de “Quero ajudar o Brasil …” (1938) temos um senhor que busca investir todas as suas economias em ações da Companhia Petróleos do Brasil, que iniciava. Através de uma campanha pró-petróleo, os incorporadores buscavam investidores que acreditassem no negócio.

“Certo dia, entrou-nos pela sala um preto modestamente vestido, de ar humilde. Recado de alguém certamente”

Negrinha, pág. 170

Com interesse em investir, surge o personagem central deste conto. Era um homem entrando. Por que defini-lo pela cor? Vamos adiante.

O homem afirma que quer investir, mas foi alertado, como os outros interessados, sobre os riscos de perder tudo. Para a surpresa dos incorporadores, quis trinta ações, o que custaria boa quantia em dinheiro.

“Trinta, sim – confirmou o preto”. “Só se aquele homem de pele preta estava escondendo o leite – se era rico, muito rico. Na América existem negros riquíssimos, até milionários; mas no Brasil não há negros ricos. Teria aquele, por acaso, ganho algum pacote na loteria?”

Negrinha, pág. 171

Não ficou claro na primeira menção desnecessária que o homem era negro? Aparentemente não. Nesses trechos e em outros no decorrer do conto, a referência à cor é constante, e em ligação com a sua condição econômica.

Que um homem sem posses invista tão alto é sim curioso, mas por que é tão estranho ser alguém negro? Para os homens de negócio, era rico por ter ganho na loteria. Mas não poderia ser por que trabalhou?

Depois de todos os avisos insistentes de que poderia perder tudo, respondeu finalmente porque queria investir no negócio. “É que eu quero ajudar o Brasil…”, diz.

Monteiro Lobato era conhecido pelo seu interesse na modernidade do país, tendo ele mesmo buscado o negócio do petróleo.

Bom, depois disso, os incorporadores, admirados do homem, deslancham em “elogios”. “De que brancura deslumbrante nos saíra aquele negro! E como são negros certos ministros brancos!”. E depois: “E se o desânimo não nos vem nunca, é que as palavras do negro ultrabranco não nos saem dos ouvidos”

Por que a virtude do trabalhador foi associada a algo branco e o lado ruim de pessoas brancas é classificado como negro? A ideia de que algo branco é bom e preto é ruim se perpetua.

Chamar alguém de “negro ultrabranco” é tão obviamente racista que chega a ser redundante ter que escrever aqui. Ser uma pessoa boa não tem a ver com cor da pele, mas com o caráter.

Atribuir as origens da virtude de alguém à cor não tem cabimento. E querer induzir que alguém negro é bom porque tem uma espécie de “lado branco” – o tal “negro ultrabranco” – é racismo, sem pensar duas vezes.

Racismo velado

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As ideias de eugenia defendidas por Lobato estão presentes em suas obras (Foto: Prefeitura de São Paulo)

Logo no início, no texto de apresentação, Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, biógrafos de Monteiro Lobato e coautores do escritor em outras obras, afirmam que os contos “Negrinha” e “O bugio moqueado”, do livro em questão, derrubam a ideia de que Lobato é racista.

De fato, quando li ambos, que antecedem “Quero ajudar o Brasil …”, tive a mesma impressão que Camargos e Sacchetta, já que os contos denunciam o cruel regime escravocrata.

Nesses dois contos, Lobato descreve com toques de sarcasmo e uso do macabro os horrores desse período para os escravos.

Só que condenar a escravidão não é sinônimo de não ser racista. Na época de Monteiro Lobato, e até mesmo hoje, o senso comum é de abominar a escravidão. Tratar qualquer pessoa da forma como os negros foram tratados é uma barbárie. Encarar a escravidão como abominável é o mínimo que se espera de qualquer ser humano.

Agora, reconhecer o racismo presente em “Quero ajudar o Brasil …”, é o que realmente contribui para a evolução do combate a esse tipo de discriminação. Porque é difícil combater o que se normaliza como “brincadeira” ou “modo de dizer”.

Todos acham absurdo matar alguém a chicotadas, como os brancos faziam com os negros na escravidão. No entanto, se alguém diz que o termo “denegrir” é ofensivo muitos alegam que não têm a intenção de ofender e não é racismo.

Nas “sutilezas” há preconceito. A visão de algumas pessoas sobre o que é racismo parou no tempo. A discussão do tema precisa ser levada a outro patamar, e não permanecer em comparações entre a sociedade atual com o Brasil de décadas atrás, mas sim com o que queremos, uma sociedade sem preconceitos.

É claro que todos nós já fomos ou somos racistas em algum momento, mesmo sem intenção. Mas o diálogo está aí para tirar de uma vez a ilusão de que a cor torna alguém melhor ou pior.

Sobre Monteiro Lobato

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José Bento Monteiro Lobato se destacou na literatura infantil brasileira (Foto: Reprodução)

José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté (SP) em 18 de abril de 1882, filho de José Bento Marcondes Lobato e de Olímpia Monteiro Lobato. A família de seu pai possuía grandes fazendas de café no vale do rio Paraíba e seu avô materno, também rico proprietário de terras, era José Francisco Monteiro, o barão e depois visconde de Tremembé.

Chegou a cursar Direito, mas não seguiu carreira. Atuou como colaborador de veículos na imprensa paulista e carioca e chegou a ser empresário do ramo de ferro e petróleo. Fundou duas editoras e se destacou na literatura infantil, com destaque para o Sítio do Picapau Amarelo. Morreu em 4 de julho de 1948, em São Paulo, aos 66 anos.

Fontes consultadas:

Negrinha / Monteiro Lobato. – São Paulo: Globo, 2008

JOSE BENTO MONTEIRO LOBATO http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/jose-bento-monteiro-lobato