“Anne de Green Gables” e o que ela me ensinou

“Posso ouvir o riacho dando risadas enquanto segue seu curso. Já percebeu como os riachos são alegres? Estão sempre rindo. Até no inverno. Uma vez escutei um; ele dava gargalhadas debaixo do gelo.”

Anne de Green Gables é o primeiro livro de uma série que acompanha a trajetória de Anne Shirley, uma garotinha ruiva e órfã que acaba sendo adotada “por engano” por um casal de irmãos de meia idade. Escrita pela professora canadense Lucy Maud Montgomery em 1905, a obra foi rejeitada por várias editoras, até ser publicada em 1908 por uma editora americana.

O livro fez grande sucesso e virou um clássico da língua inglesa. A história de Anne Shirley já foi adaptada para filmes, peças de teatro, minisséries e até mesmo anime japonês.

Mas nenhuma dessas mídias chegou até mim e eu nunca havia ouvido falar sobre Anne. Na verdade, não lembro de ter tido contato com a literatura canadense antes de me deparar com Anne with an E (AWAE), a série de 2017 do CBC/Netflix, e descobrir um novo amor.

AWAE logo se tornou meu seriado de TV preferido. Eu me apaixonei por cada detalhe, pela história, pela ambientação, pelos personagens, pela trilha sonora (you are ahead by a century…). E corri para iniciar a leitura, pois queria saber se as páginas me passariam a mesma magia que vi na tela: Anne de Green Gables não apenas se tornou meu “livro de conforto”, aquele que aquece o coração, como me ensinou algumas coisas…

ALMAS IRMÃS

Eu cresci escutando que “alma gêmea” é o seu grande amor romântico. Mas para Anne Shirley, ser kindred spirit (ou alma irmã, a tradução oficial dos livros) está além disso.

Almas irmãs são pessoas com quem você tem uma grande identificação; que sentem, veem e pensam como você. Com quem você tem uma conexão que nem precisa ser explicada.

Imagine que você irradia uma luz azul, mas todos a sua volta irradiam diferentes cores. Você pode amar grandemente essas pessoas, mas nenhuma delas tem a mesma luz que você. Até que um dia aparece outro azul: você encontrou sua alma irmã. E pode encontrar muitas por aí.

Anne Shirley e Lucy Maud Montgomery definitivamente são minhas kindred spirits.

VOCÊ É MAIOR QUE SUAS SARDAS

Anne detesta sua aparência. Ela se acha feia e acredita que ser ruiva e ter sardas são suas piores características. Mas no decorrer da história e de seu amadurecimento, ela entende que o mundo e ela são maiores que isso.

Eu cresci ouvindo piadas por ter uma testa grande e passei toda a minha infância e adolescência tentando escondê-la. Sempre foi uma grande questão para mim, mas assim como Anne, eu parei. Hoje em dia adoro penteados que deixem minha testa a mostra.

O primeiro passo para ser você é aceitar quem você é.

DAR ESPAÇO PARA A IMAGINAÇÃO

Anne sempre diz essa frase. Ela é uma menina muito imaginativa e criativa. Transforma tudo em aventura, em história, em magia. Ela vê o mundo da forma mais sublime. Não existem pequenas coisas em seu universo, tudo é grandioso. As flores, o riacho, as palavras. Tudo que existe é uma ferramenta de criação para Anne.

E esse tópico esbarra em outro, que é não deixar de ver a vida com os olhos de uma criança. O tempo todo Anne ouve os adultos a seu redor dizerem que ela precisa amadurecer logo e a comparando com outras meninas, mas Anne, com o seu jeitinho, acaba mostrando a eles (e a nós) que não é porque viramos adultos que precisamos matar a nossa criança interior.

Quando pequenos, encontramos beleza nas nuvens, diversão nas folhas voando, alegria no banho de chuva. Por que deixar toda essa singeleza ir embora?

Apesar da série da Netflix ter sido cancelada, ainda tenho mais de 10 livros relacionados a Green Gables para ler e aprender sobre a vida, a Ilha do Príncipe Eduardo e tudo mais. Outro dia eu volto aqui e conto da vez em que estava lendo Anne de Avonlea dentro do carro, estacionada embaixo de uma mangueira, começou a ventar forte e a chover manga no teto…