“A última festa” e os fantasmas da vida adulta

Imagem: Gabriela Almeida/Vírgulas Cardeais

Tentando sair de uma espiral de preocupações e procrastinação, optei por seguir meu próprio conselho: li um livro que já tinha curiosidade há um bom tempo. O eleito foi A última festa, de Lucy Foley, e a experiência foi totalmente satisfatória, essa resenha é a mais pura comprovação disto.

Um grupo de amigos de longa data viaja para um lugar remoto onde ficariam ilhados no ano novo, já que o volume da neve impediria o trânsito. Os capítulos são alternados entre os personagens, incluindo os funcionários do local. Um aparente homicídio permeia a história, o que gera desconfiança no leitor, já que qualquer um pode ser o criminoso, desconfiança essa que cresce com a evolução dos capítulos já que cada um deles revela motivações, no mínimo, questionáveis.

Amizade, costume ou conveniência?

Algo a se analisar é o que acontece na vida adulta quando se mantém amigos antigos, mas nenhum de nós segue sendo exatamente a mesma pessoa que fomos durante o colégio ou faculdade.

É normal que, com o amadurecimento, pessoas se afastem. Esse distanciamento nem sempre acontece: pode ser pura amizade, interesses materiais e conveniência ou, simplesmente, comodismo. Ao mesmo tempo em que se reconhece estar em um relacionamento falido, mas não se considera capaz de terminá-lo pelo costume de ter aquele alguém ao seu lado.

A história é bem didática a respeito de como amizades “perfeitas” podem ocultar a maldade humana.

Personagens maduros


Uma característica que me chamou bastante atenção foi a idade de seus personagens: todos têm mais de 30 anos.

Isso pode até passar despercebido, mas quando refletimos a respeito pode-se perceber como grande parte dos livros atuais são protagonizados por personagens extremamente jovens que raramente passam dos 25 anos.

Isso implica também nas problemáticas vividas pelos personagens. Filhos e ascensão profissional são temas presentes que, por vezes, passam batidos em outras obras, aqui são fundamentais para a complexa construção psicológica de cada um.

Vale a leitura?


A resposta é um sonoro sim.

Fui surpreendida positivamente pela coesão do livro: como todas as pontas são bem amarradas. O suspense se sustenta de forma lenta, tanto que, no início, tinha certeza que ficaria tedioso. No entanto, o ritmo das revelações acaba por instigar nossa curiosidade, já que cada personagem tem motivações ocultas que a priori não são reveladas.

Um livro para tirar do tédio com um final imprevisível.