Carrie: o poema de Stephen King

Recentemente fui a um sebo. Ao chegar ao caixa, com os braços cheios de livros, deparei-me com uma edição amarelada e surrada de Carrie, o primeiro romance publicado por Stephen King, em 1974. Nunca havia lido nada dele, mas nunca por falta de vontade. Não pensei duas vezes antes de adicionar aquele achado, uma edição de 1987 por apenas R$ 15, à minha pilha.

Comecei a leitura mais para ser introduzida ao tão celebrado mestre do terror e menos pela história, que eu já conhecia de trás para frente de tanto assistir ao filme Carrie, a estranha. O que eu não esperava era que ele se tornasse um dos meus livros preferidos.

O romance conta a história de Carrieta White, uma adolescente esquisita e introspectiva, fruto da criação ultrarreligiosa, insana e anormalmente conservadora de sua mãe, Margaret. Por conta disso, Carrie sofreu bullying por toda a sua vida.

E o livro já começa com um desses episódios: no 3ª ano do Ensino Médio, Carrie tem sua primeira menstruação durante um banho na escola. Sua mãe, que acreditava severamente que “coisas” como essa eram obras do diabo, nunca conversou com a filha a respeito, o que fez com que a menina, ao ver o sangue, acreditasse que estava morrendo, ao mesmo tempo que suas colegas de classe riam e jogavam absorventes nela.

O ocorrido foi crucial para que Carrie, ao fazer uma lâmpada explodir, descobrisse – na verdade, lembrasse – que era ainda mais diferente que pensava: ela possuía poderes telecinéticos.

Mas eu não vim aqui hoje fazer um resumo do livro, e sim comentar dois pontos que mais me atraíram.

À frente de seu tempo

Fora a história, é claro, o primeiro ponto é que já em seu romance de estreia, além de criticar o fanatismo cristão e outras bobagens americanas, o autor se posicionou de forma explícita contra o bullying praticado nas escolas, visto que esse assunto, e o termo “bullying” em si, só se tornou cotidiano após os anos 2000.

Stephen deixa claro, do início ao fim, que apesar da destruição ter partido das mãos de Carrie (ou melhor, de sua mente), a culpa não foi, inteiramente, dela. Carrie era uma caixa d’água enchida gota a gota pela criação surreal da mãe e pela rejeição de todos ao seu redor.

O sangue de porco foi o volume necessário para fazer a caixa d’água transbordar – e destruir tudo pela frente.

Costurando o texto

O segundo ponto é a forma como Stephen King construiu a narrativa. Em menos de 200 páginas, fez o que poucos autores fazem bem: utilizar ferramentas textuais para contar a história.

O livro é construído basicamente de duas formas. A primeira é uma narrativa padrão e linear, em que King conta, em terceira pessoa, a vida do ponto de vista de Carrie. Já na segunda forma, o autor interrompe diversas vezes essa estrutura para apresentar reportagens, textos de livros, entrevistas, depoimentos jurídicos, adiantando ao leitor o desastre causado pela menina no final do livro, e o ponto de vista da sociedade em relação a ela.

Tais recursos deram um ar cinematográfico à escrita, como filmes que misturam cenas lineares a cenas de uma futura investigação.

Outro recurso utilizado por ele foi mostrar os pensamentos de Carrie entre parênteses e soltos no texto. Essas frases não são acompanhadas de nenhum “pensou Carrie”, simplesmente são jogadas lá. No começo gera estranheza, mas depois você entende que aquilo é para mostrar uma menina cheia de conflitos internos, com pensamentos invasivos, lutando contra e a favor de sua própria natureza.

Essa forma de Stephen montar o texto fez muitas vezes a prosa parecer, estruturalmente, uma poesia – e figuradamente é.

Trecho de "Carrie", Stephen King
Um dos trechos que retratam os pensamentos de Carrie em meio à realidade

Stephen King não é “apenas” um contador de histórias, mas um escritor em todos os mínimos sentidos que essa palavra pode ter.

Também vale ressaltar que após minha leitura, reassisti às três versões de Carrie, a estranha, e percebi que nenhuma das Carries conseguiu retratar tão bem a essência da Carrie literária. Porém, Sissy Spacek (protagonista do filme de 1976) foi a que chegou mais perto e ganhou um espaço no meu coração.

Carrie foi minha primeira experiência lendo Stephen King e com certeza não será a última.

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