“Com amor, Clara”: um origami de tristezas

E-book “Com amor, Clara”, enviado pela Editora Ascensão para a Vírgulas Cardeais (Foto: Maria Cecília Costa/Vírgulas Cardeais)

Com um ano ainda tão novo e já tão repleto de tragédias, tenho que admitir que me arrependi de ter aceitado resenhar Com amor, Clara, de Fábio Viccent poucos minutos depois de tê-lo feito. Mantive minha palavra e, apesar de ter procrastinado bastante na leitura, por motivos que expliquei no meu texto anterior, finalmente escrevo aqui o que achei da delicada história de Clara.

Ao ler a sinopse de Com amor, Clara e me deparar com uma proposta predominantemente epistolar me trouxe boas lembranças: A elegância do ouriço (Muriel Barbery, 2006), que há mais de dez anos figura entre os meus três livros favoritos e, mais recentemente, o brasileiro Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Luisa Geisler, 2014) também são escritos dessa forma, além de compartilharem muitos pontos em comum com a temática da obra de Viccent.

O luto

A história começa do que é normalmente considerado um fim. Com a morte de sua mãe, Clara começa é aconselhada a buscar ajuda psicológica para lidar com o processo de luto e, como uma ferramenta para superá-lo, começa a escrever cartas para “se comunicar” com sua mãe. É a partir dessas cartas e, às vezes, alguns poemas e narrações mais diretas, que se pode acompanha a protagonista.

Em anos como 2020 e 2021, ler sobre luto é um assunto delicado, mas que aqui consegue ser tratado com relativa leveza. É bastante interessante a forma como o processo de luto é retratado: cheio de silêncios, histórias incompletas, não-linearidades e subjetividades. 

As histórias transversais à relação entre Clara e sua mãe, meio deixadas de escanteio, me deixaram com dúvidas sobre o ritmo do livro ao fim da leitura, apesar dos silêncios serem característicos de obras epistolares.

Ao mesmo tempo que gostaria de ter me aprofundado mais, por exemplo, na relação paterna de Clara, me pergunto o quão relevante esse tipo de questão se torna em uma mente tomada pelo luto e, consequentemente, nas cartas por ela escritas.


Os silêncios e a falta deles


Viccent também aposta em passagens de tempo sem uma periodicidade definida, lacunas sobre o que pode ter acontecido. Embora algumas vezes deixe clara a existência de, pelo menos, um determinado acontecimento central, tais menções são tão sutis que podem, felizmente, passar despercebidas, o que colabora positivamente para a introspecção da obra.

Como disse antes, alguns desses silêncios e passagens muito expressivas de tempo, de anos até, me causaram algum incômodo, mas com o passar dos dias após a leitura, consigo entendê-los melhor.

No entanto, uma dessas passagens me conquistou de cara: a relação entre Clara e André. Escrita de forma tão delicada e despretensiosa que, mesmo leitores difíceis de serem surpreendidos podem se deixar envolver. Os fragmentos das histórias dos personagens se entrelaçam bem e criam uma amizade instantânea.

Meu único porém a este capítulo, no entanto, é a escrita do final, que destoa do restante do livro e do próprio capítulo ao abraçar uma literalidade que não precisava ter sido dita, pois já era sentida desde muitas páginas antes.

Um origami de tristezas

Abro aqui uma pausa para ilustrar, com uma lembrança minha, quantas tragédias cabem em uma: alguns anos atrás, colaborei em uma produção sobre a etnia Kanamari. Indígenas desse povo acreditam que sempre que um membro da comunidade morre, seus parentes devem passar meses em luto, de preferência em outra comunidade Kanamari, para que possam voltar à vida cotidiana. 

Na época, a etnia passava por epidemias de várias doenças, como hepatite e AIDS e, com o aumento de mortes, as comunidades estavam passando por um luto generalizado e permanente há anos. Como consequência desses processos de luto prolongados, suicídios se tornaram mais frequentes, tornando tudo um ciclo vicioso movido à tristeza e perdas em série.

Hoje todos vivemos um luto prolongado que, se não tratado, pode ter consequências cada vez mais trágicas.

Ao ler, Com amor, Clara, a sensação que tive ao ler cada carta foi a de que o luto se dobrava sobre si mesmo. Nos momentos de alegria que, progressivamente, ficavam mais frequentes e duradouros, Clara se permitia contemplar as formas e as marcas da tristeza, seguindo em frente, pouco a pouco. Como um origami, cujas formas só fazem algum sentido no final.

Gostaria de ter lido mais desse transformação gradual da protagonista, ainda que entremeada por silêncios e descontinuidades mas que, ao fim, lhe permitisse olhar para o mundo apesar do luto e saber que, mesmo na tristeza sem solução, sempre há espaço pra alegria.

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