Tudo o que ocupa espaço demais

Imagem: acervo pessoal

Para escrever este texto que segue precisei de alguns meses. Talvez em pouco tempo ele já não diga exatamente o que quero que diga no momento, mas sinto que preciso escrevê-lo para seguir em frente.

Acabei de ouvir Call Me, da Blondie, no volume máximo. Com fones de ouvido.

Estou aqui e sinto o pânico de estar diante de uma folha de papel – ainda que digital – em branco. Cabe a mim preenchê-la depois de um semestre que relutei e procrastinei infinitamente à ideia de ler ou escrever algo simplesmente pela alegria de se escrever ou ler algo.

Por algum motivo, essa coragem sumiu. E, para ser sincera, não sei em qual momento. Talvez tenha subestimado a capacidade e mesmo a voracidade com que as histórias que lia se misturassem aos sentimentos que sentia e ao mundo em que vivia: o caos generalizado.

Observando bem, minhas últimas leituras, mesmo boas, não eram exatamente alegres. Como se não bastasse uma realidade que parece competir consigo mesma dia após dia, tragédia em cima de tragédia, medo sobre medo. Como não esperar que a única coisa a criar raízes em meio ao caos não seja o obscurantismo?

Podem ter percebido que as postagens aqui diminuíram e, acreditem, não por falta de engajamento da nossa equipe. Afinal, nós quatro gostamos de estar aqui e compartilhar nossas opiniões sobre nossas leituras, ainda que não tenhamos números expressivos em alcance. Escrevemos aqui porque queremos escrever, mais do que ganhar seguidores a rodo.

E aí que está o problema: queria escrever, mas não conseguia. A estante do meu quarto, cheia de livros a serem lidos, foi se tornando uma cobrança onipresente de que eu tinha de estar aqui, mas não conseguia estar.

Nos arrumávamos para as reuniões virtuais, histórias e ideias não faltavam, mas as pautas simplesmente pararam de sair. Um mês difícil acabou se estendendo para um semestre difícil.

Parece que o contato com um cotidiano tão absurdo não permite com que eu me deixe levar por histórias de fantasia; tão dramático que preenche todo o espaço que eu tenho – ou teria – disponível para me emocionar; tão ignorante que parece até cômico e não me deixa rir da estupidez generalizada sem sentir um desespero profundo.

Não são só livros. Não consigo assistir filmes ou séries há ainda mais tempo. Sempre gostei de reality shows, mas não gosto do fato de eles serem, atualmente, um dos poucos tipos de produtos que consigo consumir e não sentir como se estivesse transbordando. Justamente os programas que deveriam mostrar a “realidade” são os que mais me aliviam dela.

Torci mais para seleção brasileira se recusar a jogar a Copa América do que para qualquer jogo de futebol que já vi na vida.

Me assusta o quão rápidos esses parágrafos se materializam na minha frente, e sinto muito por quem revisá-los depois: eu não tenho tanta coragem assim para reler algo que relutei tanto a escrever. Não sei até agora o porquê, mas vejo que não sou a única que se sente assim. 

Precisei colocar este texto, que não sabia e nem sei como começaria ou acabaria, na minha lista de coisas a fazer no dia. Uma tarefa. Depois de realocá-la algumas vezes, aqui estou. E, não, não estou depressiva ou com dificuldades em ter esperança e olhar para o futuro. É só que o presente vira do avesso tão rápida e drasticamente que não parece sobrar energia para muita coisa.

No fim, talvez não tenha um porquê único.

É, simplesmente, tudo isso que ocupa espaço demais.