Entrevistamos: Mário Bentes, CEO da Lendari

Foto: Divulgação/Lendari

Entrevistamos Mário Bentes, fundador da editora Lendari, especializada em literatura fantástica. Mário é jornalista, escritor e editor. Foi um dos convidados a palestrar na primeira casa dedicada à literatura de ficção científica e fantasia da Festa Literária Internacional de Paraty (2018).

Mário conversou com a Vírgulas por e-mail sobre a relação entre literatura e jornalismo, a relação da Lendari com o Amazonas, os preconceitos que ainda rondam a literatura fantástica e os desafios de manter a editora em um ano tão caótico e absurdo como 2020.


VC – Mário, você é formado em Jornalismo, com experiência em alguns grandes portais de notícias brasileiros, principalmente com jornalismo científico. Como foi o processo de decidir se dedicar à criação literária e, justamente, na literatura fantástica?

Eu escrevo desde muito jovem, muito antes de cursar jornalismo. Antes disso, tive oportunidade de fazer ensino médio técnico em informática e, aos 16, 17 anos, já estudava inteligência artificial. Desenvolvia jogos por esporte e cheguei a participar da Olimpíada Brasileira de Informática em 2001.

Mas fui perdendo o interesse da área de desenvolvimento e algum tempo depois decidi cursar jornalismo. Foi o curso com o qual me identifiquei para para retomar a escrita de forma mais profissional, pois jamais perdi a vontade de ser escritor que desejo ser desde os 12 anos.

VC – Você enxerga influência do jornalismo nos livros que escreveu?

O jornalismo tem muito com a literatura, não apenas por exigir um texto leve e bem explicado para coisas complexas, mas especialmente por possibilitar o contato com pessoas muito diferentes, o que sempre rende laboratório de criação de personagens. O jornalismo me deu mais compreensão de mundo, o que acredito ser fundamental para escrever boas histórias. Mesmo as ficções são sobre sentimentos reais.

VC – A Lendari foi fundada como uma oportunidade para escritores amazonenses iniciantes pudessem publicar seus títulos em circulação nacional. Como você enxerga a relação da editora com o Amazonas hoje com a mudança para São Paulo?

A Lendari surgiu para abrir o espaço que eu nunca pensei em ter, quando comecei a escrever meu livrinho As aventuras de Dakar, em 1996. Ao longo do meu primeiro livro “real” eu aprendi muito e usei esta experiência para estabelecer as bases do que a Lendari é hoje.

Contudo, eu não criei uma marca para ser regional, mas para ser nacional e quem sabe internacional. A mudança das operações para São Paulo foi um passo natural e necessário para o crescimento.

VC – A Lendari e o Grupo Estante como um todo ganharam projeção nacional ao mesmo tempo em que se viu uma derrocada das grandes editoras e livrarias nacionais e crescimento da venda em marketplaces. Como você vê esse fenômeno?

A crise nunca foi dos livros, mas do varejo e suas estruturas inchadas e paquidérmicas. As pequenas editoras encontraram espaço na medida em que o público passou a querer ler mais e mais, e cada vez coisas mais diferentes. Mas ainda há muito o que ser conquistado.

VC – Como foi administrar uma editora em tempos de pandemia e com o governo federal ameaçando taxar os livros?

Foi um pesadelo. Fechamos, por segurança, a livraria que havíamos acabado de abrir em São Paulo. Paralisamos, atrasamos e mudamos a data de lançamento de vários outros projetos por conta do impacto que sentimos. Sem dúvida, o maior deles foi não poder realizar eventos, o que baixou muito nossas receitas. Mas estamos respirando um pouco melhor agora, apesar de haver um governo que despreza a cultura e faz de tudo para ampliar o abismo entre os agentes culturais e o público.

VC – Já foi relativamente comum ouvir escritores consagrados dizendo que literatura fantástica não seria literatura de fato. Você acha que essa visão continua?

A visão continua, basta ver a criação de uma categoria específica para o Jabuti [refere-se à categoria Romance de Entretenimento, criada em 2020]. Mas os autores pouco se importam com essa arrogância elitista, tampouco os leitores.

VC – Você foi um dos articuladores e palestrantes da Flip 2018 na Casa Fantástica, primeira casa dedicada à literatura fantástica da história do evento, 15 anos depois de sua fundação. Você acha que demorou para que o gênero fosse representado?

Demorou bastante, mas acabou que veio no tempo adequado. Anos atrás, haveria menos público e menos adesão. As transformações acontecem, em boa parte, graças aos leitores.

VC – Recentemente a editora publicou textos do escritor Edgar Allan Poe. Como foi esse processo desde a ideia de levar os títulos do autor para a editora à obtenção dos direitos autorais?

Edgar Allan Poe é um mestre do terror e do horror e achamos que deveríamos ter nossas traduções exclusivas do autor do poesma do corvo. Como as obras estão em domínio público, não há nenhum impasse quanto a direitos autorais. Qualquer editora pode publicar, desde que arque com suas próprias traduções.

VC – Vocês têm o objetivo de trazer outros livros internacionais para a Lendari?

Em 2020, vamos lançar um livro de ficção científica inédito no Brasil, além de ampliarmos nosso catálogo gringo de agora em diante.

VC – Como surgiu a ideia de fazer um financiamento coletivo para projetos da editora?

Os financiamentos coletivos foram um passo natural para a Lendari, uma vez que estas plataformas se tornaram fundamentais para conquistar engajamento do público e levantar recursos para os projetos. Foi algo que fizemos bastante e ainda vamos usar o quanto for viável e interessante. É algo a ver e decidir com cada projeto.

VC – Pra terminar, qual livro você gostaria de ter escrito/editado?

Eu gostaria de ter escrito ou editado A cidade & A cidade, de China Mièville, um grande autor de nossa época.