Conversas Cardeais: Fábio Viccent, da editora Ascensão

Fábio Viccent (Foto: Arquivo Pessoal)

No comecinho de 2020, a Vírgulas Cardeais foi selecionada como parceira da Editora Ascensão, nossa primeira colaboração com uma editora para críticas de livros. E a gente não aliviou não, viu? Dessa relação já vieram resenhas de Made in America, Com amor, Clara e O Reino de Miquilina.

Conversamos com o Fábio Viccent, escritor e fundador da editora, sobre as motivações, o cotidiano e gerenciamento de uma editora independente, as escolhas de financiamento para facilitar publicações de autores locais e, claro, sobre o futuro da Ascensão.

Vírgulas: Fábio, sendo um jornalista, como surgiu a vontade de se relacionar com a literatura?

Fábio Viccent: Bom, na verdade, a Literatura veio antes, embora eu sempre tenha tido certo fascínio pela comunicação. Sou Professor de Língua portuguesa e Literatura, lecionar é uma das coisas que mais amo nesse mundo e, espero poder fazer até os meus últimos dias. O Jornalismo é algo recente em minha vida. Também tenho gostado muito. Além da realização pessoal, ele tem me ajudado na própria editora, pois eu mesmo acabo fazendo a assessoria. Então, achei a relação muito positiva.

V: O que veio primeiro: a vontade de escrever ou de criar uma editora?

FV: A escrita sempre esteve presente em minha vida! Não tem a ver com vontade, é uma necessidade. Parece muito clichê, mas a escrita me mantém. A vontade de criar uma editora surgiu um pouco depois de minha primeira publicação. Não era meu sonho mais latente, mas eu sentia que também era meu caminho. Vi possibilidade e segui. Hoje, certamente, não conseguiria viver longe desse universo, é uma das coisas que mais amo fazer.

V: Como foi a criação da Ascensão?

FV: Eu pensei em criar a Ascensão por alguns motivos específicos: O primeiro era insatisfação com o mercado em geral e, o segundo, era poder ajudar aos autores da própria região a publicarem seus livros, 70% de nossos autores são daqui [da região de Campo Grande, no Rio de Janeiro, onde é a sede da editora]. E, sem sombra de dúvidas, ajudar a realizar o sonho de quem sempre quis, mas nunca pôde publicar, especialmente por questões financeiras. Embora não seja algo que estejamos sempre falando, 60% de nossas publicações foram sem custos para os autores. Tive também autonomia para cuidar de meus livros, o que, com certeza, é muito positivo

V: Atualmente, você está sozinho no gerenciamento da editora. Como tem sido esse período?

FV: Tem sido muito louco, acredito que essa seja a melhor definição possível. Pois, tentem imaginar um TDAH vivendo sob pressão… Então, é isso. Mas, está dando certo e as coisas seguem caminhando. Agora, inclusive, já estamos reformulando a equipe, e temos a Cielle Santos como uma de nossas editoras, o que torna o trabalho um pouco mais leve em todos os sentidos. O momento é delicado e não temos muito o que fazer, somos uma editora pequena e precisamos seguir da maneira que é possível.

V: Como acontece o financiamento para a publicação das obras editadas pela editora?

FV: É bastante relativo. Temos algumas propostas de publicação, entre elas, a publicação gratuita. Após a análise do material enviado para nós, entramos em contato com o autor oferecendo alguma proposta. Ela pode ser paga, gratuita ou colaborativa. Isso tem a ver com a obra e análise que ela receberá. 

V: Como escritor, você já publicou alguns títulos pela própria Ascensão. Isso já gerou alguma crítica?

FV: Eu acho uma delícia publicar pela minha própria editora, tendo em vista que, eu também passo por todos os profissionais que os autores passam, recebo orientações de revisores, leitores críticos etc. Ser editor não me isenta dos processos. Ao final, eu decido o valor de venda, decido como será, por exemplo, minha capa. Essa liberdade criativa não tem preço. Nunca recebi críticas pessoalmente, mas isso é algo que não me preocupa e nem tira a minha paz. Afinal, as pessoas têm sempre algo a dizer, não é? Mesmo sem que elas tenham sido perguntadas. Mas, isso não me impede de publicar em outros lugares. Participo de antologias em outras casas editoriais e, caso haja o convite para uma publicação solo, sendo positivo, eu certamente aceitarei.

V: Recentemente, resenhamos um livro seu, “Com amor, Clara”. Como foi o processo de escrita? 

FV: Difícil. Foi, sem dúvida, o projeto mais difícil pra mim. Após a introdução, fiquei 15 dias sem conseguir escrever sequer uma palavra. Acabei me conectando demais com Clara, sua história e sua dor e, logo, acabei sofrendo junto! É o livro que mais mexe comigo, não consigo tocá-lo sem me emocionar. Foi a primeira vez que tratei sobre o luto de uma forma tão intensa e real.

V: Você pensa em publicar edições de obras em domínio público?

FV: Com toda certeza! Sou apaixonado por José Saramago. O meu sonho é conseguir publicar  “Ensaio sobre a Cegueira”. Nossa, seria a coisa mais incrível para mim.

V: Que livro você gostaria de ter escrito ou editado?

FV: “O monge e o executivo”.  O livro é mais sobre como ser humano do que como ser um bom líder.

V: Apesar de ser uma editora pequena, a Ascensão tem um compromisso de manter o frete grátis pra todo o Brasil pelo site. Por que vocês fazem questão disso?

FV: Para alguns lugares do Brasil, o frete acaba saindo bem caro, o que pode ser um empecilho para algumas pessoas. Então, achamos que seria justo, interessante e, sobretudo, atrativo para os leitores.

V: O que você espera pro futuro da Ascensão?

Que sigamos produzindo livros com qualidade e cheios de amor. Que continuemos realizando sonhos sem esquecermos de onde viemos e quem somos.