“A Intrusa”: um clássico brasileiro esquecido

Ao ler clássicos da literatura brasileira como Dom Casmurro e afins, fui apresentada a um Brasil descrito por homens. Não imaginava que nesse período de belle époque houvesse escritoras de destaque por aqui, até esbarrar em Júlia Lopes de Almeida.

Publicado em 1908, A Intrusa é uma das muitas obras da autora. Nela, somos apresentados a Argemiro, viúvo e importante advogado do Rio de Janeiro, que decide contratar uma governanta para cuidar da casa e da filha. Mas o fato gera comoção negativa naqueles que o cercam.

O amor de dois fantasmas

Além de Argemiro ter prometido no leito de morte da esposa que jamais se casaria novamente e ser cobrado por sua sogra com essa promessa, todos acreditam que uma mulher trabalhando na casa de um homem viúvo acabará em relacionamento amoroso – o que de forma alguma seria bem visto pela sociedade carioca.

Mesmo com os empecilhos, o advogado não desiste da ideia, mas impõe a Alice, sua nova governanta, a regra de que eles nunca devem se ver, para evitar qualquer tipo de consequência. Quando Argemiro sai, Alice entra, e quando Alice sai, Argemiro está vindo.

Porém, ver ou não o rosto da moça não impede que o homem crie sentimentos por ela, afinal Alice está em toda parte, seja no arranjo de flores sobre a mesa, no ar perfumado da casa ou no jardim bem cuidado. O homem então se vê dividido entre o amor de dois fantasmas: o de sua esposa morta e o de sua governanta ausente (mas onipresente).

Não espere (tanto) Jane Austen

Confesso que ao início da leitura eu esperava encontrar algo como Jane Austen e suas heroínas, os bailes e a frieza dos ingleses. Mas além de ser surpreendida logo nas primeiras páginas por acompanhar a narrativa de um ponto de vista masculino, no decorrer da história eu consegui reconhecer o Brasil, mesmo que há 100 anos de distância. O caos do Rio de Janeiro, o calor das pessoas, a autenticidade e imposição de personagens que querem ser ouvidos e não enrolam para falar.

A história é leve, relativamente rápida e muito bem escrita. Júlia conseguiu criar personagens carismáticos e reais, e uma trama que, mesmo que previsível, você quer chegar depressa ao fim para saber como termina.

Mas quem foi Júlia Lopes de Almeida?

Essa pergunta me acompanhou durante toda a leitura, e fiquei surpresa ao descobrir a resposta.

Júlia fez parte das reuniões de idealização da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, onde devia ocupar a cadeira número 3. No entanto, os membros decidiram adotar o modelo da Academia Francesa e excluir a participação de mulheres. O lugar de Júlia foi então cedido ao seu marido, o português Filinto de Almeida. Apenas em 1977 a regra foi alterada, dando espaço à entrada de Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ocupar “oficialmente” uma cadeira na ABL.

Em um período em que mulheres não tinham voz, Júlia escreveu para o jornal O País por mais de trinta anos, com pautas como abolição e feminismo. Publicou ainda dez romances, além de livros infantis e peças de teatro.

Pergunto-me por que não ouvi falar de Júlia na escola, ou em qualquer lugar. Se eu não tivesse esbarrado nela, não sei se ela chegaria até mim. Júlia Lopes de Almeida definitivamente foi uma importante contribuinte da literatura brasileira e da história brasileira, espero que seu nome não seja apagado.