Poetas não morrem, são eternizados nas sementes de seus versos

cora coralina
A obra Meu Livro de Cordel foi lançada em 1976 (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando li Meu Livro de Cordel, de Cora Coralina, pensei em como quase perdemos a oportunidade de conhecer a beleza dos versos da poetisa. Cora, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, só publicou seu primeiro livro aos 76 anos, em 1965. Embora escrevesse desde jovem, sua dedicação completa à literatura ocorreu na velhice, com trabalhos que chamaram a atenção de Carlos Drummond de Andrade, o que a tornou mais conhecida pelo público.

Agradeço por esse talento não ter morrido com Cora, que partiu em 10 de abril de 1985, aos 95 anos, mas ao mesmo tempo foi eternizada em seus poemas. Como ela mesmo diz em Meu Epitáfio:

“Não morre aquele

que deixou na terra

a melodia de seu cântico

na música de seus versos”

(Meu Epitáfio, página 106)

Sementes

Em Meu Livro de Cordel é perceptível a alusão frequente ao campo, pelo uso constante de termos como sementes, colheitas, semeadura, árvores, flor, entre outros. Estão espalhados graciosamente em vários poemas.

Além da sensação de proximidade com a natureza que Cora provoca na forma como emprega as palavras para transmitir suas ideias e emoções, entendo que a poetisa faz ligações entre o fazer do poeta e do homem do campo, entre a semente e o poema.

“Vou rodando. Vou dançando,

tecendo meu Pau de Fita.

Sementes vou semeando

nos campos da fantasia.

Vou girando. Vou cantando

e … não me chamo Maria”

(Variação, página 17)

Não só nesse, mas em outros poemas, Cora compartilha na delicadeza de seus versos a sua visão do poeta enquanto semeador, e devagarinho semeia e faz germinar no leitor sentimentos que só a poesia pode despertar.

“A vida é uma flor dourada

tem raiz na minha mão

Quando semeio meus versos,

não sinto o mundo rolando

perdida no meu sonhar

nos caminhos que tracei”

(Variação, página 16)

Cora chega a fazer uma relação entre a figura do poeta e o divino, quando cita a referência bíblica para o surgimento de todos os vegetais na Criação.

“… e no terceiro dia da

criação o Criador

dividiu as águas, fez os mares

e os rios e separou a

terra e deu ela ervas

e plantas.”

“Nasceu a árvore.

E o Criador vendo que

era boa multiplicou a espécie

em sombra para as feras

em fronde para os ninhos

e em frutos para os homens.

Só depois de muitas eras

foi que chegaram os poetas.”

(Anhangüera, páginas 31 e 32)

Esse outro traço comum nos poemas em Meu Livro de Cordel, as alusões bíblicas, também merece destaque.

Divino

A poetisa usa referências bíblicas na construção de seus versos. E faz isso de forma tão natural que o que ela escreveu e o que foi escrito há milênios se mesclam naturalmente, com histórias dialogando harmoniosamente nas poesias.

Na alusão ao texto bíblico, Cora cria uma aura com o divino. Também reforça a ideia de que os textos sagrados estão cheios de inspirações que vão além de leituras rasas e reduções à religiosidade.

“Do Conúbio místico da terra e do sol

a eclosão. Quatro lírios

semi-abertos, apontando os pontos cardeais

no ápice da haste.

Vara florida de castidade santa.

Cetro heráldico. Emblema litúrgico

de algum príncipe profeta bíblico

egresso das páginas sagradas

do ‘Livro dos Reis’ ou do ‘Habacuc’”

(A Flor, página 21)

Na estrofe há referência ao livro de Mateus, capítulo 6, versículos 28 e 29.

“28. E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

29. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.”

Para sempre

Cora deixou a sua relevante contribuição à literatura brasileira já ao final de sua vida, mas foi o suficiente para que até hoje tenha lugar de destaque. Como ela, muitos outros escritores já partiram, mas as suas obras permanecem influenciando gerações.

Na minha compreensão, o comparativo entre o poeta e o semeador é uma bela metáfora. Porque como sementes lançadas que germinam independente de quem as plantou, assim são as ideias transmitidas nos versos de quem já se foi.

“Eu voltarei …

A pedra do meu túmulo

será enfeitada de espigas de trigo

e cereais quebrados

minha oferta póstuma às formigas

que têm suas casinhas subterra

e aos pássaros cantores

que têm seus ninhos nas altas e floridas

frondes.

Eu voltarei…”

(Eu Voltarei, página 72)