“Os Testamentos”: uma continuação que não deixa a desejar

“Os Testamentos”, de Margaret Atwood, na edição brasileira da editora Rocco (Foto: Gabriela Almeida/Vírgulas Cardeais)

Lançado em 2019, quase 35 anos após o primeiro livro, Os Testamentos se passa 15 anos após os eventos relatados em O Conto da Aia, sobre o qual já falamos por aqui.

O livro traz três narradoras principais, cada uma em seus capítulos próprios até suas histórias se encontrarem.
Uma delas é a odiada e amada Tia Lydia. Aqui podemos ler pela ótica da mesma toda a sua história desde os primórdios do regime teocrático e patriarcal, quando foi recrutada para o cargo de tia, juntamente com duas outras que, unidas, ficariam conhecidas como “As Fundadoras”. Criaram várias leis, o sistema de educação das aias, as “pérolas” (missionárias de Gilead) entre outras regras de convivência.

A segunda narradora é Agnes, uma jovem criada nessa nova sociedade, que se vê em conflito do que seus pais desejavam para si: um bom casamento com um comandante ou filho de um. Gostaria de falar mais sobre Agnes, mas dessa vez vamos evitar os spoilers: o livro é bom demais.

Fechando as protagonistas temos Daisy, uma adolescente que cresceu no Canadá que conhece o básico sobre a história de Gilead e a repudia como a maioria das pessoas. Essas três mulheres fortes carregam a narrativa, apesar de tantas outras mulheres igualmente fortes contribuírem para a construção desse novo tipo de governo que está por ser contada.

35 anos depois…

É muito comum ter certo receio de ler a continuação de um livro quando se está completamente apaixonada pelo primeiro. Esse foi precisamente o meu caso. O conto da aia é um livro irretocável, uma obra-prima, então obviamente fiquei receosa.

Já admirava bastante a escrita de Margaret Atwood, mas aqui ela alcança um novo patamar, claro que era de se esperar que tivesse aperfeiçoado-se ao longo dos anos pela prática, mas ainda assim fui surpreendida por tamanho domínio da narrativa: a história é complexa e cheia de reviravoltas, mas em momento algum perde a mão ou deixa pontas soltas.

Gilead

Dessa vez é apresentada do ponto de vista da Tia Lydia a maior parte do tempo, assim, temos contato com os arquivos de crimes de comandantes e esposas, demonstrando a realidade corrupta e hipócrita do regime. Adentramos a gênese de Gilead e como tantas mulheres foram coagidas a aceitar tornar-se parte daquilo. É explícito que suas escolhas não foram livres.

Claro que existiam fanáticos conservadores, pessoas fundamentais no golpe de estado seguido da implantação de novas políticas que, em suma, retiravam todos os direitos das mulheres: votar, dirigir, divorciar-se, até mesmo ter seu próprio dinheiro. No entanto, grande parcela da população não concordava com as novas leis, o que acabou por originar o grupo de resistência Mayday, que já vimos no primeiro livro.

O Hológrafo de Ardua Hall

Uma das escolhas acertadas da autora foi trazer mais do passado de tia Lydia, personagem cheia de camadas. O que leva uma mulher a coagir outra sob o comando de homens? O livro demonstra de forma gráfica e perturbadora o que é necessário para quebrar uma pessoa e as cruéis demonstrações de lealdade que mulheres foram obrigadas a passar.

Lydia sobreviveu com uma sequência estratégica de falar a coisa certa na hora certa, tomada de um instinto que lhe mostrou que, caso não se curvasse, quebraria, como tantas outras. Principal líder da casta das tias, braço direito do prestigiado comandante Judd, mostra-se uma mulher extremamente inteligente e manipuladora, tendo domínio das pessoas por meio dos seus segredos, informações coletadas durante anos, sempre aguardando o momento correto de serem usadas.

Sua história é registrada em um diário manuscrito conhecido como “o hológrafo de Ardua Hall”, encontrado em uma biblioteca.

Desfecho imprevisível

O final é emocionante. Até o último momento não conseguimos prever o que está por vir, pois a sequência de eventos gera várias possibilidades. Confesso que li as últimas 100 páginas madrugada adentro, por simplesmente não conseguir largar o livro. Foi uma leitura extremamente satisfatória e rápida, apesar de suas quase 450 páginas.

Fui surpreendida da melhor forma possível por Os Testamentos, espero que as próximas leituras de 2021 estejam à altura.