“O peso do pássaro morto”: difícil de digerir e esquecer

Capa de “O peso do pássaro morto”, de Aline Bei (Foto: Divulgação/Editora Nós)

Há alguns anos ouvia falar de Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), da Luisa Geisler, e O peso do pássaro morto (2017), de Aline Bei, como dois expoentes da literatura feminina contemporânea no Brasil. Coincidência ou não, essas foram minhas primeiras leituras em 2020 e 2021, respectivamente.

O peso do pássaro morto é o livro de estreia da escritora Aline Bei. Construído com forma de poema e ritmo de prosa, conta a história de uma mulher que, entre os 8 e 52 anos, tenta fugir de traumas, da morte e de si mesma.

Poesia e romance

depois de uns três dias minha garganta
Para de doer pra sempre até a próxima
dor.

O grande destaque da obra é sua própria estrutura: apesar de ser um romance, a história é contada em versos, estes bastante carregados e cuja eloquência é perfeitamente coerente com o envelhecimento da personagem – de quem não sabemos o nome. Como boa fã de poesia concreta que sou, foi um prato cheio.

Em especial durante a infância, acompanhamos os primeiros contatos da protagonista com a imprevisibilidade da morte e suas impressões de mundo como criança. Expressões como “deusinho teimoso”, “fiquei com cara de nuvem” e “um piano caindo em mim” me pareceram ter saído da boca de uma criança e, apesar de mostrarem a inocência da protagonista, parecem completamente anacrônicas aos dramas que ela já precisa entender.

Será que com o uso
um dia a lágrima acaba?, a vida
pode ser longa e eu não queria
virar
uma menina sem lágrima no meio do
caminho
uma mulher.

Depois dos 17 anos, vi uma mudança brusca na linguagem, que passa a ser mais objetiva. Ainda sim, é interessante observar que a protagonista ainda mantém otimismo até certo ponto mas, aos poucos, já não consegue se recuperar de mortes e traumas que ecoam dentro de si.

As expressões que citei anteriormente já não parecem tão elementares, mas compõem o mundo particular da personagem.

O vazio

a cara toda
cerrada
de gozo e nenhum ódio,
o ódio agora
era meu

Em praticamente todos os capítulos há reviravoltas, mas acredito que os dois primeiros tenham impacto maior no desenvolvimento da personagem e do vazio formado ao longo do tempo. No primeiro, o contato com a morte e, no segundo, com a violência, parecem quebrá-la diariamente pelo resto da vida.

Nesses espaços de dor parecem coexistir, ao mesmo tempo, inocência e ódio. Por vezes, sua frustração é tão grande que vem em forma de amargura aparente e uma vulnerabilidade desajustada, e a criança que tinha sido parece ser evocada com as mesmas metáforas de elementos simples, como a morte em si.

O que fica

Assim como é difícil de digerir, O peso do pássaro morto é também um livro difícil de esquecer.

Caso você não saiba, a Vírgulas Cardeais tem sede em Manaus. Li O peso do pássaro morto no mesmo dia em que começou a falta de oxigênio nos hospitais amazonenses durante a pandemia de coronavírus, em 14 de janeiro de 2021. Apesar de ter gostado do livro em si, não acho que tenha sido um bom momento para lê-lo.

Foi um livro difícil de digerir e que não sei se recomendaria a todos, mesmo ficando positivamente impressionada com a estrutura e a construção da personagem.

A sensação que tive, ao ler, é que estamos cercados por morte. E por vida também, “o problema mesmo foi a falta também de amor”, como justifica a protagonista. Foi complicado ler trechos assim enquanto eu estava – e ainda estou – em uma cidade em colapso no sistema de saúde por mal planejamento generalizado das esferas públicas.

Existe maior falta de amor?