Precisamos falar sobre “Minha Sombria Vanessa”

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER GATILHOS RELACIONADOS A PEDOFILIA E VIOLAÇÃO SEXUAL.

E-book “Minha sombria Vanessa”, da editora Intrínseca. (Foto: Gabriela Almeida/Vírgulas Cardeais)

Eu ponderei várias vezes se deveria trazer o debate a respeito desse livro, mas levando em consideração que o texto possa ajudar vítimas de abuso e estupro, obrigo-me a voltar a setembro do ano passado, quando li Minha Sombria Vanessa.

O livro, lançado em 2020, marca a estreia de Kate Elisabeth Russell como escritora, ainda que ela tenha trabalhado na obra há 18 anos, conforme afirma nos agradecimentos.

Vanessa Wye é uma adolescente de 15 anos, e após começar a estudar em um colégio interno acaba por se envolver com seu professor de 42. Um “relacionamento” marcado por muito abuso psicológico, estupro e uma pedofilia velada que prejudica Vanessa de todas as formas possíveis, ainda que ela não veja dessa ótica.

Vanessa e suas peculiaridades

O livro é escrito na primeira pessoa, então podemos acompanhar toda a jornada de Vanessa por suas próprias palavras. Uma leitura desconfortável, mas que nos prende – li as 480 páginas em seis dias. Não consegui largar o kindle até terminar, torcendo para que ela ficasse bem. Era desesperador ver as situações pelas quais a garota passava sem poder fazer nada para ajudá-la.

Algumas pessoas sentem raiva de Vanessa por ela simplesmente recusar-se a admitir que foi vítima de um predador, mas esse não foi o meu caso. Vendo a extensão do trauma e as consequências que isso acarretava, senti pena.

Vanessa foi, obviamente, vítima de abuso físico e psicológico, o que a levou a acreditar que realmente mantinha um relacionamento amoroso com seu professor pedófilo e manipulador que, inclusive, procurava infantilizá-la ainda mais.

Ela só consegue admitir o que sofreu quando busca tratamento junto a uma psicóloga, pois, ainda que não admita, está totalmente quebrada por dentro. A partir desse momento acompanhamos a virada de Vanessa, seus questionamentos acertados e por fim o próprio reconhecimento como uma vítima de abuso pronta para apoiar as próximas vítimas.

Vladimir Nabokov e sua influência

O professor Strane empresta um livro para Vanessa e, pasmem, era Lolita. Apesar de não poder falar com propriedade sobre esta obra de Vladimir Nabokov, visto que ainda não a li, é óbvio que o enredo é de conhecimento geral e nesse caso torna-se ainda mais perturbador.

Para Vanessa o livro trata-se de uma história de amor legítima, e quando ela eventualmente a compara com sua história Strane fica extremamente incomodado, pois reconhece a pedofilia contida em Lolita, mas se recusa enxergar a sua própria.

Em vários momentos o livro é citado, criando paralelos e uma espécie de inspiração doentia para viver o que ela considera o seu primeiro amor. Ela prende-se ao livro, quase colocando como objetivo ser não a Dolores de todos, mas a Lolita de Humbert Humbert.

Quantas Vanessas estão perdidas?

Apesar da história ser fictícia (assim declara a autora no início do livro, mas há controversas a respeito) é sabido que casos desse tipo ocorrem com uma frequência assustadora. Sem contar com aqueles que são abafados pelas instituições, e podem acabar fazendo com que os pedófilos saiam impunes e infelizmente continuem fazendo mais vítimas, utilizando sua posição de poder sobre jovens que ainda são incapazes de distinguir paixão e abuso.

É necessário que sejam feitas as denúncias, que a família ampare e os colégios não se eximam da responsabilidade que lhes cabe. O apoio psicológico também é indispensável; os traumas desenvolvidos são profundos e vão certamente influenciar na forma com que a vítima se relaciona na sua vida adulta, como foi o caso de Vanessa.

Vale a leitura? Bom, isso somente o leitor pode responder. No meu caso gostei muito da escrita e o debate do livro é extremamente necessário, mas não vou mentir falando que é uma leitura fácil. É pesado, repleto de gatilhos, e quando termina só conseguimos pensar no abraço que jamais poderemos dar em Vanessa Wye.

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Se precisar conversar, ligue 188. É gratuito.