“A Lenda do Vulcão do Mendanha”: um vulcão carioca e o imaginário popular

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A Lenda do Vulcão do Menndanha, de Carlos Eduardo de Souza (Foto: Arquivo Pessoal)

O Amazonas, bem como o restante do país, é rico em histórias oriundas do imaginário popular, responsáveis pela criação de nossas lendas mais famosas.

Mas além das mais conhecidas, num nível mais próximo da realidade de cada um, temos os nossos próprios contos, espalhados pela vizinhança, bairro e cidade. Aqueles que não sabemos se são verdade ou invenções passadas de geração em geração.

Sendo reais ou não, a verdade é que enriquecem o imaginário popular e marcam da infância à fase adulta. Em A Lenda do Vulcão do Mendanha, Carlos Eduardo de Souza soube aproveitar isso muito bem com a curiosa crença da população do bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro, de que haveria ali um vulcão ativo.

Ao compartilhar com o leitor essa particularidade do lugar do qual faz parte, o escritor mostra como as histórias populares, mesmo em nível micro, não só rendem bons contos, como merecem ser perpetuadas.

Contos urbanos e a memória das cidades

Até ler A Lenda do Vulcão do Mendanha, não sabia nada sobre o bairro Campo Grande ou a Serra do Mendanha. Isso, por si só, já mostra a relevância da obra, que compartilha para além das fronteiras do estado a existência do espaço e da sua história, que me cativaram.

Carlos Eduardo conta com carisma a vida cotidiana do bairro. Uma localidade comum, com uma vizinhança aparentemente receptiva e que segue a vida como a maioria das outras no Rio de Janeiro.

Essa normalidade é quebrada quando um vulcão, que acreditavam estar extinto, desperta e aterroriza os moradores. A fumaça e lava tomam conta do lugar, a mídia local noticia o evento inesperado e forças de segurança e socorro se dirigem a Campo Grande para tentar socorrer os habitantes.

A erupção de um vulcão é algo retratado como uma catástrofe em muitas passagens na história, sempre resultando na destruição de cidades e mortes. Mas aqui temos uma espécie de lenda urbana, narrada de forma leve e cômica, auxiliada por ilustrações, que dão um ar pitoresco ao local e à situação.

À medida que a lava do vulcão avança na cidade, o escritor vai citando importantes acontecimentos relacionados à origem do lugar, pontos locais conhecidos e outros elementos da cultura local. Tem-se uma história que entretém o leitor, mas também marca no mapa aquele pedaço da cidade, uma contribuição histórica através da Literatura.

Valorização da população original

Carlos Eduardo faz questão de incluir na narrativa informações sobre os primeiros moradores da Serra do Mendanha: os tupinambás. Mesmo que brevemente, considero relevante o espaço destinado a citar quem estava no local antes mesmo de existir o estado do Rio de Janeiro, os moradores primeiros do território que hoje chamamos Brasil.

De acordo com o autor, habitantes da aldeia Tantimã se deslocavam pela serra, também chamada pelos tupinambás de Jericinó, Jorisinom, Jorixinonga, Joricinõga, entre outros.

Carlos Eduardo narra que o nome da serra remetia a “mãe que vem fazer”, “origem que faz o ser” ou “montanha da mãe geradora”. A montanha era considerada sagrada, onde encontravam tudo o que precisavam para viver.

Importância do registro jornalístico

Embora não haja comprovação de que exista um vulcão na Serra do Mendanha, a possibilidade foi realmente cogitada há algumas décadas. O autor anexa ao conto reportagens e informações relatando a descoberta de rochas de origem vulcânica e partes de relevos, parecidas com uma chaminé, pelo geólogo Alberto Ribeiro Lamego, em 1938, que estudou a área.

Após anos de discussão, especialistas concluíram que não existe vulcão na região, mas estudiosos ficaram divididos. Alguns afirmam que há milhões de anos havia atividades vulcânicas no local, mas que com o tempo as mudanças no relevo fizeram com que o vulcão desaparecesse; outros alegam que há um vulcão, mas inativo; e por fim, os que acreditam que há somente um relevo que lembra um vulcão, mas que nunca existiu um de fato.

Seja como for, os relatos registrados nos jornais são importantes acervos que mantém viva essa famosa lenda urbana da região. Jornais antigos são documentos que embasam a História, e ao mesmo tempo, verdadeiras fontes de inspiração. Quem sabe quantos contos sobre Manaus, por exemplo, não estão nas páginas de antigos periódicos?

As reportagens da época no caso do vulcão do Mendanha tiveram papel importante para perpetuar a suposta existência do protagonista desse conto e alimentar esta e outras histórias que possam surgir.

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